O Plenário do Silêncio e a Democracia do faz de conta

Foto: Genilson Carvalho


Por: Prof. Genilson Carvalho - Sociólogo e Comunicador

Recentemente, ao chegar ao município de Urucará, no coração do nosso Amazonas, meu olhar de sociólogo e cidadão politizado não buscou apenas as belezas naturais, mas as dinâmicas humanas e sociais que definem a vida na zona rural. 

Antes de adentrar os espaços de poder, caminhei pelas periferias. Ali, constatei uma realidade que a propaganda oficial raramente alcança: bairros inteiros mergulhados na escuridão, famílias que ainda aguardam o direito básico à energia elétrica, em um território que cresce em população, mas parece estagnar em infraestrutura.

Movido pela necessidade de entender como essas carências são traduzidas em ação política, decidi acompanhar uma sessão ordinária na Câmara Municipal. 

O convite para a participação popular foi feito da forma mais tradicional e democrática possível: o carro de som, percorrendo as ruas e levando a convocação aos ouvidos do povo.

No entanto, ao entrar no prédio do Legislativo, o primeiro choque foi o visual: as galerias estavam vazias. Mesmo com o chamado ecoando pela cidade, o povo não apareceu. 

Esse distanciamento entre o representante e o representado é o primeiro sintoma de uma ferida profunda na nossa democracia local. 

Onde deveria haver pressão popular e vigilância, havia apenas cadeiras desocupadas e um silêncio perturbador.

A sessão ocorria logo após o Dia Internacional da Mulher. Como observador, anotei um ponto positivo: a presença de uma mulher na composição da mesa diretora. Contudo, a esperança de um debate vibrante parou por aí. 

Quando a presidência abriu inscrições para o uso da tribuna — o espaço sagrado da fala, do pequeno ao grande expediente — o que se viu foi a paralisia. 

Nenhum vereador se prontificou a ocupar o microfone para pautar as necessidades urgentes do município ou para prestar as devidas homenagens às mulheres urucaraenses naquela data simbólica.

O que vi em seguida foi uma cena que define a política do nosso tempo: o espetáculo da imagem sobrepondo-se à substância do mandato. 

Vereadores, aparentemente sadios e vigorosos, mantinham-se "de corpo presente", mas de voz ausente. Enquanto a tribuna permanecia muda, as assessorias trabalhavam freneticamente nos bastidores do plenário. Celulares de última geração, luzes e enquadramentos eram preparados para registrar vídeos de "atuação" para as redes sociais.

Ali, o mandato parlamentar parecia ter se transformado em uma peça de publicidade digital. 

O objetivo não era o debate de ideias ou a fiscalização dos problemas de falta de luz nos bairros periféricos, mas a construção de uma narrativa para o Instagram. 

Vivemos a era do simulacro: o vídeo para a "mídia" vale mais do que o discurso em defesa do povo.

Como sociólogo, saí daquela sessão com uma conclusão amarga. 

A política cidadã está sendo asfixiada pela estética do engajamento virtual. 

Enquanto as galerias permanecem vazias e os microfones desligados, as luzes das telas brilham para um público invisível, enquanto o cidadão real, aquele da periferia sem luz, continua à margem, esquecido entre um "post" e outro. 

Urucará, assim como tantos municípios, precisa urgentemente que seus representantes troquem o brilho das telas pelo suor da luta real na tribuna.

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1 Comentários

  1. Na hora de votar o povo vai continuar votando nas mesmas figuras, atraves da compra de votos.

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